unha encravada.
eu sempre senti como se você pudesse tocar as partes mais profundas da minha alma, como se você tivesse a capacidade de ler tudo aquilo em mim que ainda estava em formação.
fisicamente, poderia descrever como se suas mãos atravessassem o meu corpo e mexessem desajeitadamente em todos os meus órgãos, mas como quem sabe exatamente o que está fazendo.
meu coração era apertado pelas suas unhas afiadas e a dor me parecia como um despertar necessário, embora desconfortável.
comecei a achar que o desconforto deveria estar sempre presente. como se a própria palavra, por si só, pudesse dar nome à quem eu era, à quem eu sou. como se a minha existência estivesse profundamente conectada com essa sensação inquietante de que algo não estava correto.
um dia, você me disse que só bastava eu existir.
tentei só existir, mas o desconforto ainda me acompanhava, como uma unha encravada que sempre volta quando você caminha tempo demais com o mesmo sapato deformado e apertado.
no entanto, quando fui tentar arrancar essa unha, vi nela o seu olhar. e vi no seu olhar, um reflexo de mim mesmo. não era um retrato fiel, era mais como uma caricatura de quem eu deveria ser,
de quem eu poderia ser,
de quem você acreditava que eu deveria ser.
deixei com que meu pé continuasse doendo, permiti com que a dor daquela unha encravada tomasse conta de mim e me dissesse, a cada dia, quem eu deveria ser a cada momento.
o problema é que às vezes nem ela sabia me dizer qual caminho seguir, e muitas vezes ela parecia desesperançosa com a realidade que encarava, como se a decepção fosse para ela o mesmo que o desconforto era para mim. um nome.
encarei essa decepção e quis tomá-la pra mim, como se isso também fosse meu. apertei mais os meus cadarços e caminhei muito. meus dedos sangravam e minhas meias já não eram apenas pretas, mas ligeiramente marrons, de um sangue que já secou e agora faz parte do tecido. eu não queria nem as lavar, queria que elas fossem lembranças do meu fracasso. fracassei em tirar de ti o que já era seu, mas eu desejava que fosse apenas meu.
um dia, mesmo sem querer me livrar do desconforto, tirei as meias, limpei o sangue e cortei as unhas.
seu olhar ainda me perseguia, mas agora não tão diretamente, apenas nos resquícios de um dedo dolorido. respirei aliviado pela primeira vez em muito tempo.
meses depois, quando olhei para os meus pés e percebi que não havia mais dor, me lembrei de você me dizendo que eu apenas podia existir, que só isso bastava, mas também lembrei do seu olhar, do meu reflexo decepcionante, que era tão seu quanto meu.
lavei os pés com água quente. não porque doem, mas porque a sensação é boa, e dizem que previne que as unhas encravem.
e então torci para que eu nunca mais existisse, e que seus olhos nunca mais me alcançassem.

